quinta-feira, 15 de novembro de 2012

"¿Que weá, weon?" - Ep.5 (Actualizado)

"Tremores de Terra"

É com franqueza no trato e na descrição que me permito a mais um capítulo desta nobre rubrica.
Desta vez, falamos de algo do qual realmente não podemos escapar. Sem grandes patrocínios, este episódio conta no entanto com um grande patrocinador: Homecenter Sodimac.


Regressado ao velho continente denota-se já em mim uma clara sensação de conformismo sendo que a falta de acontecimentos e situações extremas e radicais faz-me relembrar os aspectos caricatos de viver no Chile, entre eles a constante actividade sismica.
Foi logo nas primeiras semanas que tive a minha primeira experiência (contada aqui).
Sabia que em algum momento iria sentir algo do género, mas nunca pensei que fosse tão cedo e com tanta força. A força efectivamente foi grande, pois na altura chamei-lhe "terramoto", quando devia ter-lhe chamado "tremor de terra". Entre as coisas que fui ficando a saber por experiência e conversas, está o facto de que a distinção entre esses dois termos tem a ver com a quantidade de danos causados, o que obviamente se relaciona com a intensidade, mas muito também com o tipo de construção.
Essa foi assim a minha melhor lição, pois a pouco e pouco comecei a nutrir uma espécie de carinho pelas podres casas de Valparaíso. Não há nada como a sensação de segurança por viver numa casa cuja estrutura sobreviveu a pelo menos dois grandes terramotos. É por essa e por outras razões que o tema das casas merecerá brevemente outro episódio nesta rubrica.

Tremores de terra tão fortes, só voltei a sentir mais dois. Um desses foi especial porque estava num terreno diferente do de Valparaíso em que a terra flutuava num manto de água. Este facto fez com que eu, durante o tremor de terra (que durou alguns minutos) senti-se o chão literalmente a baloiçar, numa espécie de surf em terra "firme". Foram experiências assustadoras mas de certa forma radicais. Foi já depois de ter sentido bastantes tremores de terra que me comecei a habituar a eles, influenciado também pelas reacções divertidas dos chilenos, que levavam sempre tudo para a brincadeira. Era, de facto, uma sensação nova e incrível. Algo que fazia disparar a adrenalina e me fazia sentir vivo e consciente do poder da mãe natureza. A pouco e pouco, o respeito por toda a realidade que me envolvia, crescia e transformava-me enquanto pessoa habituada ao velho continente.
Falando em "velho", é interessante referir que o edificio mais antigo do Chile em pé se encontra em Valparaíso. É um pequeno armazém de pólvora construído em tijolo, datado entre 1807 e 1809. Este facto reflecte um pouco a fragilidade e efemeridade  das construções neste país.
Viver então num lugar "descoberto" (melhor dizendo, colonizado) no séc. XVI, em que a sua beleza e cultura não se reflecte na verdade ou mentira dos seus edificios é uma experiência de grande valor para um estudante de arquitectura como eu. Ensinou-me sem dúvida imensas coisas que não tinha ainda aprendido, ou pelo menos, apreendido.
Dentro desta riqueza cultural arquitectónica encontra-se a história de Valparaíso, muito ligado a questões de geografia e urbanismo.
Valparaíso vangloria-se de nunca ter sido fundada, uma condição excepcional no contexto da América Latina, principalmente para uma cidade com a importância que Valparaíso tem. Seria como se o Porto nunca tivesse tido foral.
Sendo assim é notável estudar a maneira como a cidade se desenvolveu e como foi ocupando os cerros.  A influência dos terramotos na construção e apropriação do terreno em Valparaíso foi algo que fui percebendo aos poucos, também através da disciplina de "Geografia del Gran Valparaíso".
O momento mais importante foi aquando do terramoto de 1906, com epicentro na costa de Valparaíso e que destruiu a maior parte da cidade, deixando a zona plana da cidade completamente dizimada.
Nos anos seguintes, procedeu-se à reconstrução e reformulação da zona plana da cidade. Nesses anos, as pessoas foram alojadas nos cerros sub povoados que se situavam exactamente em frente a essa zona. O resultado foi a expansão automática da cidade, confirmando a baía construída. Enquanto as obras se desenvolviam na parte plana, as pessoas observavam tudo visto de cima, como se vissem em escala e tempo real o próprio projecto urbano, como uma folha. Desse facto veio o nome "Plan", que vem de "Projecto" e não de "Plano". O cerro onde eu vivia (Cerro Monjas) é um desses cerros, sendo por essa razão que dato a casa onde vivi desse período de inicio de século XX, também pelos seus traços iminentemente burgueses e a proximidade ao Plan.
Esta grande distinção entre Cerro e Plan tornou-se ainda mais intensa e mais uma vez se torna vantajoso viver em altura pelo fenómeno pós-sismico chamado "Tsunami".

Este foi um momento importante na história de Valparaíso, mas a verdade é que não faltam pequenos pormenores na história desta cidade, que evitarei referir agora por pena de este episódio se tornar demasiado longo e enfadonho.

De resto, voltando ao cerne do tema em causa, existem outros pontos a destacar como por exemplo o facto de que tudo está torto. Não existe uma janela direita, uma porta que feche bem, um vidro que não tenha um canto partido, um passeio que não esteja rachado, um tecto que não esteja remendado. Mesmo nos edificios mais nobres e públicos encontramos coisas muito tortas, como o campanário da igreja de La Matriz, a fachada da Igreja que dá para a Avenida Argentina, e o desnível de alguns metros de uma pequena igreja situada na Calle Condell.
Conclusão: os terramotos não dão espaço ao rigor e perfeição que tanto me habituei a ver na Europa.
Isto resulta em casas muito simples, construídas com base na economia dos materiais, sem grandes pretensões de perenidade mas tomando em conta pormenores construtivos adquiridos empíricamente ao longo do tempo pela experiência sísmica deste país.
De referir também outros factos insólitos, consequência do sismo de 1960 em Valdivia (considerado o mais forte sismo do mundo registado), como por exemplo as zonas inundadas da cidade, e a pequena povoação de Puerto Saavedra, que conta com uma costa completamente distinta, com direito a um lago de água salgada (visitei na altura do ELEA 2011), entre outras cidades inteiras que mudaram de cotas de altitude...
É assim que aos poucos certas coisas começam a fazer sentido e se tiram conclusões caricatas como, por exemplo, a inexistência de prateleiras altas com pequenos objectos. Uma imagem algo comum em casas portuguesas, em que se acumulam pratos pintados à mão, entre outras louças e bibelos que, em caso de tremor de terra, podem produzir muitos estragos e serem mesmo fatais.

É inevitável para mim agora, mesmo voltado à firmeza de Portugal, não pensar nisso cada vez que empilho por exemplo frascos ou coloco coisas no topo dos móveis. Também é inevitável o alerta produzido na mente quando sinto o chão tremer quando passa um autocarro.
Tal como um desporto radical, não posso deixar de confirmar uma certa saudade de sentir um bom tremor de terra...

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