quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

De um atribulado regresso à civilização


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Valdivia, La niebla, Paillaco e Ruta 5

            A minha viagem a sós com o S. estava a terminar. Como referi anteriormente, a nossa relação estava, por força das circunstâncias, a melhorar significativamente. Não obstante, estávamos a caminho de nos juntar com o terceiro elemento, o E., e, para ser franco, estava já a prever algum atrito. Se o S. divagava no seu sábio mas diletante risco, o E. era uma extensão, mais a modo de catalisador que despoleta o crescimento de discussões de carácter político e social de génese demasiado intrincada e diria até, muitas vezes, louca.
            Chegamos ao terminal de Valdivia, a cidade que sofreu, em 1960, o maior terramoto alguma vez registado pela humanidade, com uns assombrosos 9.5 pontos na escala de Richter (alguns especialistas apontam que o terramoto de Lisboa de 1755, poderá ter chegado aos 9 pontos na escala de Richter sendo o seu epicentro a bastantes kms da costa portuguesa) e fomos directos ter com o E. à zona do rio homónimo.

Valdivia é conhecida por ser uma cidade que se localiza no cruzamento de quatro rios – Calle-calle, Valdivia, Cau-cau e Cruces. Foi uma cidade importante na defesa da costa por parte dos espanhóis e isso confirma-se pelo conjunto de fortificações que existem (ou existiam!) na zona. É uma cidade iminentemente nova, pois foi reconstruída recentemente e, sendo que após o dito terramoto, a altitude média da cidade subiu 2 metros em relação ao nível do mar, podemos imaginar aquilo que mudou nos últimos 50 anos. Neste momento, com a expansão do mercado de criação e exportação de salmão no Chile (que compete hoje com a Noruega), a cidade cresceu e tornou-se num dos centros urbanos mais importantes da região.
O contacto com o rio é franco e agradável, com uma lota bem no centro da cidade, onde vimos à venda alguns tipos de peixe, incluindo salmão. Ficamos um pouco a observar também os lobos marinhos que brincavam no rio em frente à lota. Entramos no mercado, que era imediatamente em frente, e decidimos comer num dos restaurantes que sempre existem nos mercados. Escolhemos um bastante normal, e eu decidi provar o peixe Sierra por ser um dos mais baratos, inclusive mais barato que a Reineta, o que me espantou. Não me desgostou o sabor e a textura, tendo apenas algumas espinhas a mais do que desejaria. Bebemos um litro de cerveja enquanto discutíamos o que fazer a seguir. O E. estava sem dúvida ainda muito ligado à vida de Valparaíso, enquanto eu e o S. pontuávamos as decisões com aquilo que já tínhamos observado nos nossos primeiros dias de viagem.
Após terminar a refeição, descemos a visitar o andar térreo do mercado, onde havia uma feira de artesanato super turística. Lembro-me nesta altura de o E. me mostrar uma espécie de flor que se chupava. Não tinha muito sumo, mas lembro-me que era doce e se podia ir mordendo até perder o sabor. Chovia bastante em Valdivia e seguindo um pobre plano, fomos em direcção à costa para visitar La niebla, lugar onde poderíamos encontrar um forte. Não tínhamos chegado a nenhum consenso em relação a visitar a fabrica de cerveja artesanal mais conhecida do chile: a Kunstmann.


Fomos então para a estrada que nos levava a La niebla, ainda bem dentro da cidade e começamos a pedir boleia, feitos tolos, à chuva e em figuras, convenhamos, bem tristes! Resignados pelo insucesso, lá apanhamos um autocarro que nos levou até ao lugar. Enfim, lá o que vimos foi um conjunto de calhaus sob uma chuva e ventos intensos e quase mortais! Foi, realmente, impossível ver alguma coisa e fomos caminhando pela estrada de volta à procura de lugar para ficar. Os campings estavam obviamente em vantagem climatérica contra nós e os preços não nos agradavam nem um bocado. Enfim lá conseguimos regatear um pequeno telheiro onde pudéssemos, ainda que completamente no exterior, montar a tenda protegidos da chuva e, finalmente, evitar outra noite molhada...
Aproveitamos uma aberta e fomos a pé até ao recinto onde estava a decorrer uma fiesta costumbrista. Aí, bebemos por todos uma garrafa de chicha, comemos empanadas e vimos grupos a dançar a cueca, a dança típica do país. Tivemos, sem dúvida, uma noite muito chilena. Ao voltar, passamos num pequeno mini mercado e compramos algo para o jantar, aproveitando para estrear o nosso Camping Gas. Quando experimentamos montar o sistema pela primeira vez (obviamente não nos lembramos de o testar em Valparaíso!) chegamos à conclusão de que o tipo de gás que tínhamos não servia para o bico. Foi um balde de água fria, principalmente porque tínhamos tudo preparado para começar a cozinhar. Entretanto pedimos à dona do camping se poderíamos usar a sua cozinha por breves momentos. A Senhora foi extremamente simpática e disponibilizou-nos de bom grado a cozinha. Fizemos uma mistela à base de batata, tomate e ovos. Algo básico e  substancial para alimentar os nossos corpos. Lembro-me da curiosidade extrema da senhora em saber a origem do prato que estávamos a preparar, como se fosse uma receita do outro mundo. Ao nosso lado, no camping, conhecemos uns viajantes, que eram chilenos e que, por coincidência, estudavam em Valparaíso. Ele era um apaixonado por cerveja e aconselhou-nos a visitar a cervejaria Kunstmann. Lembro-me de ele me dizer que a sua cerveja favorita era a Austral, produzida com água dos glaciares na cidade de Punta Arenas. Ficamos na conversa até tarde.
No dia seguinte, entre acordar tarde e com a chuva, chegou-nos a notícia de que não havia água quente. Esperamos imenso, mas em vão. Apesar da extrema simpatia dos donos, sentimos que tínhamos gasto mal o dinheiro. O quase almoço foi, novamente, pão, palta e tomate. Voltamos a Valdivia, sem parar na cervejaria Kuntsmann e eu, novamente, senti-me desanimado pelas circunstâncias. Era bom ter o E. e o S. por perto, mas sentia que andávamos novamente às voltas num lugar sem saber bem o que estávamos a fazer. Talvez tenha sido demasiado precipitado, mas a verdade é que o tempo não ajudou em nada.
Em Valdivia, encontramos um lugar baratíssimo onde nos enchemos de comer Empanadas de Pino (Carne) e Calzones rotos, um doce chileno com não tanta ciência como pensava. De modo a seguir o nosso novo e pensado plano, apanhamos um autocarro para a Paillaco e pedimos ao condutor do autocarro para nos deixar no cruzamento com a Ruta 5, estrada também conhecida como Panamericana e que se incluí na lista das estradas mais míticas do planeta, ligando toda a costa do Pacífico, começando no Alasca e terminando na ilha de Chiloé, no Chile. Esta estrada, a Ruta 5, era assim a nossa derradeira oportunidade de viajar à boleia ao verdadeiro estilo americano. As rectas infinitas, a possibilidade de paragem e o grande número de camiões comerciais pareciam ser a fórmula do sucesso para o resto da nossa viagem. O nosso objectivo seria chegar, no mesmo dia, a Frutillar,  uma pequena localidade à beira do grande lago de Llanquihue e onde morava uma colega nossa da escola de Valparaíso. Uma oportunidade única que, certamente, não queriamos desperdiçar!

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