terça-feira, 2 de abril de 2013

De um descanso à moda germânica


Frutillar, Puerto Octay, Puerto Varas




            “Despejados” na Ruta 5, instalamos um sorriso de orelha a orelha e levantamos o dedo à caça de boleia. Depois de algum tempo, não muito, passado na companhia de uma yerba mate, parou um autocarro que nos poderia levar até próximo de Frutillar. Achamos estranho ser um autocarro e perguntamos quanto nos iria cobrar. A resposta foi simples e directa: “Mas afinal de contas vocês não estão a pedir boleia?”.
            Entramos e reparamos que o autocarro ia vazio. Era velho, esfarrapado e ferrugento. Na coxia havia uma roda inteira e alguns bancos estavam reduzidos a buracos. Estávamos sozinhos com o condutor, muito jovem, e a sua namorada. Pessoas muito simpáticas, que, pelo que tínhamos percebido, estavam a fazer uma viagem ocasional.
A calma acompanhou-nos enquanto fazíamos este troço da dita Panamericana. É uma estrada recta, tipicamente americana. As paisagens, como sempre, bonitas mas calmas, com um pôr-do-sol a aconchegar-nos. Viajamos assim por umas boas horas, poupando uns bons pesos. Partilhamos o lanche com o motorista e a namorada. Não conversamos muito e a certa altura, o autocarro começou a fazer um barulho muito estranho. Paramos na berma e o motorista abriu o capô para verificar o motor. Uma avaria era tudo menos aquilo que esperávamos! Após ter enchido o depósito de água, seguimos caminho, cada vez mais lentamente, até fazermos, durante algumas horas, uma distância mínima à velocidade de 20 km/h. Olhamos uns para os outros, sem saber muito bem o que fazer. Paramos de novo próximo de uma fonte de água, onde fomos todos, sem excepção, carregados os garrafões de plástico. Tudo isto rendeu-nos uns escassos kms, até chegarmos a uma estação de portagens, onde o motorista deixou o autocarro e, literalmente, se juntou a nós a pedir boleia para terminar o seu próprio caminho. Foi, de facto, surreal! Por respeito ao senhor, deixamos que fosse ele o primeiro a pedir boleia, não estragando as hipóteses mostrando que éramos 5. Além disso, um casal tem sempre muito mais probabilidades de arranjar uma boleia. Da nossa parte, estávamos a ponderar a hipótese de acampar por ali, caso fosse necessário. Os autocarros que passavam não paravam (pois iam já lotados) e os nossos amigos não demoraram muito até obterem sucesso. Ficamos algum tempo a pedir boleia, tendo como alvo principal os camiões que obrigatoriamente tinham de abrandar na portagem. Lembro-me que parou um enorme camião de tire, que pensamos querer oferecer-nos boleia, mas que na verdade apenas parou por igualmente ter um problema mecânico. Oferecemo-nos para ajudar mas a simpatia não era o forte deste senhor. Estivemos assim cerca de meia hora, até que um camião parou e disse: “Posso levar apenas 2”. Pensamos um pouco e decidimos que o E. poderia ir primeiro, juntando assim com a nossa colega chilena que nos esperava em Frutillar, enquanto eu e o E. continuaríamos à caça de uma boleia, que, caso não arranjássemos, teríamos de acampar por ali. Assim foi e a verdade é que não demoramos a que uma pequena camioneta parasse e nos levasse aos dois. Era um senhor muito simpático com um sotaque cerradíssimo, do qual não entemos um 87% do que disse. Deixou-nos portanto na ponte pedonal próxima a Frutillar e daí encontramo-nos com a C., a nossa amiga que nos levou de Frutillar de arriba para Frutillar de abajo, onde tinha a sua casa.
Fomos muito bem recebidos na sua casa. Tinha um cão muito simpático e fomos logo instalados em dois quartos. Sentimos um súbito regressar ao luxo da civilização e do sedentarismo! Com a C. fomos até ao centro, onde entramos num bar a tomar uma cerveja. Lembro-me de ter começado a reparar nos inúmeros sinais da influência alemã nesta zona do Chile. Para além do tipo de arquitectura, havia muitas escolas e casas alemãs. Provei uma cerveja local, chamada Salzburg. Era muito boa e no rótulo tinha uma javali. Perguntei se na zona existiam javalis e a resposta foi que não, “mas em Salzburg, terra do fundador da cervejaria, sim”. Fomos até à praia que dava para o lago Llanquihue, o maior lago exclusivamente chileno, e lá tomamos as nossas cervejas. Quando começou a choviscar decidimos voltar para casa. Ficamos ainda algum tempo numa saleta a ver televisão. Estava a decorrer o festival de Viña del Mar, um importante evento que se realiza todos os anos na Quinta Vergara e que nessa noite contava com a actuação do cantor dominicano Juan Luis Guerra, interpretando os clássico Burbujas de Amor. Deitamo-nos relativamente cedo, após um banho que nos retirou as camadas de sujidade dos últimos dias e dormimos aconchegados no luxo de umas camas quentes e confortáveis, ao som da chuva a bater no telhado.


No dia seguinte, tivemos direito a um pequeno-almoço muito bom e a C. disponibilizou-se a mostrar-nos Puerto Octay, uma cidade ali ao lado e um dos exemplares mais importantes da influência alemã. O tempo estava um bocadinho melhor e passeamos nas margens do lago. Apesar de tudo, não pudemos ver o vulcão Osorno, o grande atractivo. Depois de um pequeno passeio, voltamos para casa, onde nos esperava um almoço caseiro. Comemos pollo al jugo, que estava muito bom e no final tivemos direito a um kuchen de frambuesa e a ciruelas en calda com leite condensado. Foi um verdadeiro mimo!
A pedido nosso, fomos deixados novamente no cruzamento da Ruta 5, onde ficamos alguns minutos à espera do camião de tire que nos aceitou levar até Puerto Varas. O motorista era muito simpático e conhecia Espanha, tendo ficado muito entusiasmado com o E., chegando ao ponto de telefonar a uma amigo seu, espanhol, para falar com o próprio E. Foi uma situação caricata. A viagem foi naturalmente curta e ficamos algum tempo a passear por Puerto Varas. Uma cidade essencialmente de origem alemã e bastante turística. Passeamos um pouco pela cidade e visitamos a igreja. Demos também uma volta pela costa e descansamos um pouco com vista para o lago. Tentamos a nossa sorte a pedir boleia na rua principal que ia em direcção à cordilheira, mas não tivemos sorte. Acabamos por apanhar uma micro que nos deixaria em Ensenada, onde nos esperavam mais algumas aventuras.


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